KNMD | The Med Trip

A edificação de um bom álbum de hip hop instrumental não é assim tão simples, até porque não basta colar uma batida seca sobre uma melodia samplada para alcançar bons resultados. O que não faltam por aí são amostras pobres e pouco inspiradas, trabalhos que, apesar de finalizados e masterizados, parecem nunca ter passado a fase de maquete. Obras com pouca personalidade às quais acabamos por virar costas por não criar qualquer tipo de magnetismo ao ouvido. Lá está, não basta casar um loop de bateria e uma repetitiva frase de piano ou violino para que a coisa resulte. O nível de exigência de um álbum de hip hop instrumental é mesmo esse: preencher o espaço que normalmente seria utilizado pela voz com material que colmate essa ausência. Parece fácil mas é mais complicado do que aquilo que aparenta, principalmente se quisermos que o produto final tenha algum sumo para espremer.

Se há álbum de hip hop instrumental que merece especial destaque em 2020 é The Med Trip, da dupla francesa KNMD. Como o próprio nome indica, The Med Trip sugere uma viagem pelo Mediterrâneo recheada de elementos que evocam paisagens áridas e antigas medinas fortificadas mas, ao mesmo tempo, toda a costa que se estende de Marrocos ao Egipto e da Turquia ao sul de França. Para tal, os KNMD (sigla que resulta da soma dos nomes dos produtores envolvidos, Kayo e Nakre Making Dinars) piscaram o olho ao legado de Fairuz e Farid El Atrache, muniram-se de samples de Oum Kalthoum e Barış Manço, artistas e obras cruciais para a construção deste imaginário Med, e adicionaram-lhes batidas fortes e sabiamente variadas a nível rítmico, onde tão depressa encontramos boom bap inspirado nos anos 90 como baterias mais lentas e pautadas com pratos de choque acelerados, além, claro, de uma vasta paleta de elementos de percussão.

Esta é uma aventura que parte de Estrasburgo, comuna francesa de onde o colectivo é originário, em direcção à Turquia, com escalas no Egipto, Líbano e Síria. Pelo caminho há uma importante vénia ao hip hop de Marselha. Ao citarem IAM nos temas “Marhaba” e “In Your Eyes”, o que os KNMD estão a fazer, na verdade, é a honrar uma ponte construída há décadas entre o Sul de França e o Norte de África, nomeadamente o Egipto – ou, se quisermos aprofundar mais, a respectiva antiga civilização. Desde o início dos anos noventa que esta tem sido uma importante máxima para a banda constituída por Akhenaton, Shurik’n, Khéops, Imhotep e Kephren. O simbolismo é óbvio: numa França onde valores como a liberdade, igualdade e fraternidade só existem no papel e nos brasões que se erguem quando é conveniente, traçar uma rota pelo Mediterrâneo é mais do que uma mera opção estética. The Med Trip é um manifesto. Cabem nele a crise dos refugiados – a menção a Calais no final de “Marhaba” é só a ponta do novelo que se desenrola até à sugestiva “Border Checkpoint” -, a Europa do Brexit e os intermináveis conflitos no Médio Oriente.

Um disco para colocarmos a mochila às costas e partirmos numa odisseia por entre as ruas e ruelas dos tradicionais mercados, intercalada com pequenas pausas para um morno chá de menta ao mesmo tempo que ouvimos as orações que rasgam os céus oriundas dos altifalantes espalhados pelas vilas e cidades. Uma imensidão de texturas e aromas para desfrutar com os nossos mais apurados sentidos. Tudo isto envolto em batida forte e seca que se interliga aos samples de instrumentos e vozes com uma densa camada de Harissa e Ras El Hanout. Há violinos, ouds, bombos, tarolas e excertos de áudio que se soltam em francês ou em árabe. Há liberdade, sobretudo. Preparados?

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