Ric Flo | Rebirth of the Phoenix

Em conversa com a Ritmoterapia em Março deste ano, por altura da edição de “Green Light”, single que se sucedeu aos temas “Replay”, “Can’t Complain”, “All In” e ao EP Rise of the Phoenix, Ric Flo informava que este não seria um ano dedicado à edição de registos de longa-duração já que se encontrava mais focado em “construir EPs de forma a gerir as próprias expectativas e mostrar um trabalho centrado numa particular temática ou momento da vida”. Ainda na mesma resposta, o membro dos Jungle Brown, que nos intervalos dos compromissos com a banda vai desenvolvendo a sua carreira a solo, afirmava que olha para os seus EPs como mini álbuns, ou seja, fragmentos de uma jornada contínua que visa adaptar-se ao paradigma actual musical. “No decorrer do ano passado, andei a estudar a indústria musical assim como o meu ofício; a consistência foi o factor chave para a minha preparação para 2020”, completava.

Poucos meses passaram depois da entrevista que gentilmente cedeu à Ritmoterapia mas o cenário actual da pandemia transformou este curto período temporal numa eternidade. Muita coisa mudou. Mudaram os nossos hábitos diários, as nossas prioridades, a forma como olhamos para tudo o que nos rodeia, a maneira como nos relacionamos com as pessoas e as nossas próprias expectativas. Fomos de uma forma geral obrigados a alterar os nossos planos, a reerguer-nos e, em alguns casos, a reinventar-nos. O que ontem era um certeza passou a ser uma incógnita para hoje e uma página branca para amanhã. O livro vai sendo escrito aos poucos sem promessas ou probabilidades e com um grande poder de encaixe para os desvios a que os nossos projectos se possam submeter.

Dentro dos parâmetros desta nova realidade, também Ric Flo parece ter modificado ligeiramente os seus planos para 2020. É que Rebirth of the Phoenix, o seu mais recente lançamento, aproxima-se mais de um registo de longa-duração, o comummente intitulado álbum, do que propriamente de um EP ou até mesmo uma colecção de temas soltos. E não tem tanto a ver com a duração do disco, que não vai além dos 30 minutos de escuta, mas sim com o conceito e concepção, a ideia e o combustível que motivaram a sua criação. Rebirth of the Phoenix foi construído em período de confinamento, altura em que a COVID-19 nos afastou de tudo e todos e nos mergulhou numa estranha e desconfortável solidão, levando a mente a reflectir sobre os mais variados assuntos e os mais diversos cenários. É por isso um álbum muito pessoal, intrínseco, que mostra um Ric Flo preocupado com a vida e com a sua própria existência.

“Before I’m 25”, por exemplo, mostra o artista a rimar sobre o que gostaria de fazer caso soubesse que a sua vida se findaria antes de soprar a sua vigésima quinta vela. Procurar as respostas para todas as suas perguntas, conhecer o seu pai, escrever um álbum sobre a sua vida. O que quereríamos fazer imperativamente caso nos informassem que temos os dias contados? Já certamente todos fizemos este exercício. Logo a seguir há “Never Grow Up”, o tema Peter Pan que explora um exercício semelhante. Desta vez, Ric Flo venda os olhos e mergulha num cenário de tonalidade azul e branca que traz à memória o de um confortável sonho do qual não queremos de formar alguma acordar (ver vídeo da música), recordando alguns episódios da sua infância e cruzando-os com o presente. É o medo de crescer a vir ao de cima, a vontade de aproveitar a vida ao máximo e não deixar os bons momentos escaparem como um punhado de areia que vai fugindo por entre os intervalos dos dedos. Mais à frente, o lockdown. “How’s Your Day Been” mostra o rapper britânico a responder às perguntas sobre o seu dia-a-dia em confinamento. O que tem feito, sobre o que tem pensado, como tem ocupado o seu tempo. “Forbidden Games”, quase no final, versa sobre o drama das famílias separadas pela imigração, um amor à distância que facilmente se ajusta à situação actual do novo coronavírus.

São vários os produtores envolvidos em Rebirth of the Phoenix, na esmagadora maioria recrutados através da plataforma Beatstars, que o músico afirma ser, ainda na mesma conversa com a Ritmoterapia, “fundamental na mudança das regras do jogo, na medida em que permitem aos músicos trabalharem com talentosos produtores espalhados pelo mundo”. Parte da textura cola-se aos anos 90 e evoca o legado de bandas como De La Soul, Us3, A Tribe Called Quest e Digable Planets, citando apenas alguns exemplos, que são, aliás, uma importante bússola para os próprios Jungle Brown, trio que divide com MAEAR e Tony Bones The Producer. Quem disse que os anos 90 não podem viver harmoniosamente e em conformidade com 2020?

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