A canção é uma arma. Liraz utiliza-a para derrubar os muros erguidos pela política e religião

Liraz divide as suas origens entre o Irão e Israel. É cantora e prepara-se para editar Zan, o sucessor de Naz (2018). No seu código genético podemos encontrar, além de uma óbvia riqueza geográfica e cultural, elementos de electro pop que se cruzam com ritmos e sonoridades retro persas. Zan, que terá lançamento marcado para o próximo dia 13 de Novembro, está recheado de participações clandestinas com músicos iranianos. Todas as colaborações tiveram que ser mantidas em segredo como forma de afastar os olhares dos mulás (nome dado aos clérigos islâmicos locais ou líderes de mesquitas) e da polícia secreta de Teerão. Haverá melhor definição de underground do que esta?

Os temas de Zan (“mulher”, na língua persa) são o cumprimento de um sonho, transportando Liraz até às profundezas do país que lhe preenche o coração e que popularizou as histórias que os pais lhe contaram quando era criança. Histórias escritas para as mulheres do seu seio familiar, que se conectam com a sua própria. “Eu canto por causa dessas mulheres, para elas, por elas”, explica Liraz na sua página de Bandcamp. “As minhas avós ficaram noivas quando tinham 11 e 12 anos, e casaram aos 15. Tiveram ambas muitos filhos, mas tinham uma enorme paixão pela vida. A minha mãe derrubou muitos dos muros em torno das mulheres. A minha tia idem. Eu assisti a isso na minha infância. Elas lutaram pela sua liberdade, e eu agora luto pela minha, contando essas histórias nas minhas músicas”.

A sua família, composta de judeus iranianos, radicou-se em Tel Aviv em meados dos anos 70. Contudo, apesar de ter sido criada em Israel, acredita que a sua cultura é iraniana, uma conclusão a que chegou quando se mudou para os Estados Unidos durante três anos para trabalhar como atriz, tendo contracenado em filmes como A Late Quartet e Fair Game. Encontrou em Los Angeles uma gigantesca comunidade iraniana. “Existem um milhão de iranianos lá, tantos que rebaptizei a cidade como Tehrangeles”, pode ler-se nas mesmas notas. “De repente senti que pertencia a algo para além de Israel. Ouvi a música feita antes da revolução e comecei a coleccioná-la. Alguma composta por mulheres que não pararam de cantar depois da revolução, como era suposto fazerem. Deixaram o Irão para poderem continuar e eu senti essa coragem nas suas vozes. Isso fez-me concluir que não queria representar mas sim cantar”.

Em Naz, álbum de 2018, Liraz explorou as sonoridades da pop iraniana pré-revolução. Cantou em Farsi (língua persa), o idioma dos seus pais, uma das formas de se interligar com herança dos avós. Concluído o álbum, sentiu de imediato que o próximo passo teria que ser ainda mais arrojado. Foi então que decidiu trabalhar com músicos iranianos. “No início, parecia uma utopia”, explica. “Mas tive muita sorte. Muitas pessoas no Irão encontraram Naz e ligámo-nos online. Os músicos mandaram-me vídeos, alguns escreviam todos os dias. Coloquei várias questões em busca de diferentes instrumentistas e instrumentos. Ao longo de um ano e meio, as músicas de Zan ganharam forma. Algumas dessas pessoas estavam assustadas, pois ajudar alguém assim era contra a lei e, por isso, pediram-me para não usar os seus nomes”.

De Zan conhecem-se, para já, “Zan Bezan” (“mulher, dança”) e “Injah” – os dois temas que abrem o disco. No primeiro, Liraz e a sua banda israelita unem-se a uma percussionista anónima sediada em Teerão. Trata-se de uma cativante peça electro pop com poderosos acenos musicais a estrelas da pop iraniana dos anos 70 como Googoosh, sendo a mensagem de empoderamento feminino absolutamente contemporânea. A segunda explora os mesmos trilhos pop de “Zan Bezan” com destacadas guitarras, sintetizadores cheios e um ritmado baixo. “Todas as músicas foram escritas em Tel Aviv e no Teerão”, explica Liraz. “Sinto que estes colaboradores são meus irmãos. Aqui vivemos numa democracia mas temos um governo louco. No Irão as suas vidas são muito disciplinadas, mas podem fazer o que querem em suas próprias casas”. Zan não é um simples álbum mas sobretudo um grito de liberdade e fraternidade, um documento que visa derrubar barreiras e criar pontes entre países divididos por desavenças políticas e religiosas.

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