Orlando Santos levou a sua casa de praia até à Fábrica do Braço de Prata

Ver um espectáculo ao vivo tornou-se numa verdadeira aventura nos dias que correm. Primeiro, todo o clima de receio e apreensão dissolvidos na densa nuvem pandémica que cobre todo o mundo. Será seguro abandonar a nossa zona de conforto sanitário e arriscar perante a escalada do número de infectados? É uma das perguntas que inconscientemente saltita na mente de quem, conscientemente, teme por si e pelos seus. E depois há a questão da logística. Combinar com amigos com antecedência, para que o espaço não esgote a sua lotação (algo que, com as medidas impostas pela DGS, acontece num piscar de olhos); marcar mesa, saber ao certo quantas pessoas são, garantir que transportamos connosco o material de protecção individual, e, por fim, mentalizarmo-nos que esta nova normalidade não nos vai permitir levantar do lugar para dançar, ir ao bar pedir bebidas ou sequer cumprimentar decentemente uma ou outra cara conhecida sentada na mesa ao lado.

Contudo, a fome de concertos é o melhor tempero para estas aventuras. A de Orlando Santos na Fábrica do Braço de Prata, no passado sábado, iniciou-se com sonoridade blues. Sozinho, de slide guitar ao colo e cadeira centrada com um tapete que lembra as cores do rastafarianismo, o músico português mergulhou no azul escuro de um mar calmo e sereno, acenando, cá de longe, a nomes como Ben Harper e Jack Johnson. O imaginário marítimo é quase omnipresente, da ideia do lobo solitário que compõe as suas músicas à beira-mar, sentado num amontoado de rochas e de olhos fixos num alaranjado horizonte que aos poucos se despede do sol, à própria sweatshirt que coloca a palavra “maktub” em destaque – de origem árabe, significa “destino” ou, melhor, “o que estava destinado”, e é frequentemente utilizada em contexto de surf. Por momentos, até esquecemos que Lisboa é uma cidade à beira-rio e imaginamos um cenário de forte rebentação e areia fina e solta. Abrem-se as portas de uma isolada casa de praia.

Da sua sala de estar, decorada com uma estante de livros e com duas malas de guitarra em gentil contacto, Orlando Santos afasta-se aos poucos das texturas azuis que deram o arranque ao espectáculo e abraça uma recta dedicada ao reggae. Constrói repetições a partir do seu looper, com o ritmo a ser extraído de leves pancadas no corpo da viola, e adiciona-lhe acordes sincopados que imediatamente casam com o padrão na base dos seus pés. O preparado instrumental é cozinhado em lume brando, calmamente, sem pressa, permitindo a que cada camada se sobreponha com a devida cadência e no momento certo. Há um espaço deixado em branco, onde mais à frente se encaixa a voz. Esta cola-se à coesa família de loops e desenha melodias ternas e suaves que servem de almofada para a alma. É como se o reggae e o blues tivessem encontrado no timbre vocal de Orlando Santos um perfeito ponto de intersecção.

A identidade de Orlando Santos faz-se notar precisamente neste crossover entre géneros, à medida que o concerto vai avançando. É que nunca chega a ser uma repentina mudança de paradigma mas sim uma lenta oscilação entre os diferentes universos, que nunca deixam de se tocar e de beneficiar mutuamente. Até mesmo quando serve versões de outras músicas – “Just Breathe” dos Pearl Jam, “Ain’t No Sunshine” de Bill Withers, e “Home Again” de Michael Kiwanuka são alguns dos exemplos – o músico imprime-lhe um cunho pessoal, uma assinatura própria, por mais leve que possa soar ou parecer. Nas mesas redondas espalhadas pela tenda, o público trata de balançar o corpo na cadeira e acompanhar as letras emanadas a partir do pequeno PA montado nas laterais do palco.

Somos conhecidos por ser um povo saudoso, que muitas vezes eleva esse sentimento a uma fasquia demasiado elevada que não nos permite soltar as amarras do passado. Contudo, esta é daquelas situações em que a palavra “saudade” não soa despropositada ou até desgasta. Sim, sentimos todos saudades dos tempos em que ir a um concerto não implicava um complexo plano logístico e em que as palavras “condições sanitárias” se enquadravam unicamente no asseio – ou à falta dele – das casas de banho do recinto. Neste momento, reina o medo, a insegurança e a incerteza. Ainda assim, teremos saudades daquilo que foi ou daquilo que poderá novamente vir a ser? Ou seja, viver no passado ou ambicionar um futuro melhor do que o presente? “Sodade”, de Cesária Évora, foi uma das últimas canções a ser interpretada por Orlando Santos na Fábrica do Braço de Prata, mas, neste contexto da COVID-19, até esta música parece querer olhar para a frente e não para trás. Que isto passe rápido para que a normalidade possa ser reposta.

460