As tardes de Julia

Manhã, tarde e noite. Três distintas alturas do dia que provocam diferentes estímulos no ser humano. Há quem se sinta inspirado pela magia de um colorido amanhecer, quando os raios de sol rasgam o céu e dão o tiro de partida para mais uma jornada de trabalho ou lazer; há quem se deixe enamorar por um relaxante final de tarde numa esplanada com a sua alma gémea, à beira-mar, altura em que o astro-rei se despede para lá do horizonte e estende a alaranjada passadeira a um romântico programa nocturno; e há quem prefira o carácter misterioso da noite que tantas vezes serviu de palco para as mais imprevistas e frutíferas aventuras.

E há quem não se identifique com uma – ou até mesmo todas – as etapas desta tríade. É o caso de Julia Holter. Em “So Humble the Afternoon”, a artista norte-americana deixa-se envolver nas vibrações quentes do sintetizador e nos timbres do mellotron para criar uma base reconfortante para depositar a sua voz e suavizar o “carácter áspero da tarde” que lhe parece sempre ser “a parte menos introspectiva e mais alienada do dia”, como é possível ler nas notas de edição. Holter vai ainda mais longe e faz coincidir a aura nebulosa do tema – originalmente editado em 2018 como parte da série de singles da Adult Swim e colocado agora em todas as plataformas digitais – com este tempo “infinitamente apocalíptico”, referindo-se, claro, ao paradigma actual e a toda a nova normalidade causada por toda esta situação pandémica.

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